No Carnaval de Olinda, onde tradição e irreverência se encontram pelas ladeiras tomadas por foliões, bonecos gigantes e o som do frevo que ecoa entre os casarões históricos, a festa que deveria ser sinônimo de celebração e pertencimento tem sido atravessada por cenas de violência e repressão. Para compreender como a relação entre carnaval e segurança pública se manifesta no cotidiano de quem constrói a festa, o ISER conversou com Mayara Gomes, diretora da Troça Carnavalesca Mista John Travolta, uma das mais tradicionais de Olinda. Em seu relato, ela denuncia abuso de poder, despreparo estatal e a crescente tensão com forças policiais que já começou durante as prévias carnavalescas.
Com seu tradicional boneco gigante e cortejo animado por orquestra de frevo, a Troça Carnavalesca John Travolta é uma das mais conhecidas do carnaval de rua de Olinda. A prévia, realizada em janeiro deste ano, foi interrompida por uma ação policial, durante o tradicional momento de revelação do novo boneco. Segundo Mayara, houve agressões verbais e físicas contra integrantes do bloco e a manifestação cultural tem sido alvo recorrente de ações policiais truculentas. “Esse episódio de violência sofrido pelo John Travolta revela o abuso de poder que já vem acontecendo há um bom tempo. Infelizmente, revela o despreparo da polícia para o carnaval de Olinda e o quanto falta planejamento, principalmente com blocos que arrastam multidões. Não é a primeira vez que isso acontece, mas dessa vez passou do absurdo”, afirma.
Mayara reconhece que há problemas de violência urbana que atravessam o carnaval, especialmente nas prévias. “Infelizmente, tem gente que já vem com intenção de roubar, brigar, fazer arrastão. Isso ainda é muito presente, em específico nas prévias, que eu noto serem mais violentas do que o período oficial do carnaval.” Mas para a diretora, a repressão policial tem sido excessiva e agravado o cenário. “Acaba que a gente tem dois problemas: de um lado o aumento de roubos, do outro o abuso de poder dos policiais. Essa repressão intensifica a violência em um momento que deveria ser de lazer.”
O uso indevido de spray de pimenta em meio à multidão, que inclui idosos, crianças e os próprios músicos do carnaval, é um exemplo dessa prática. “Lançar spray de pimenta no meio da multidão é muito comum. Não é necessário estar tendo briga para eles fazerem isso. Às vezes fazem só para dispersar o público, parar com o que eles chamam de ‘agonia’. Mas é só a galera pulando frevo, brincando mesmo”, pontua.
Para ela, discutir segurança pública no carnaval significa reconhecer e respeitar a cultura local. Mayara defende que uma política eficiente não pode ser baseada na lógica do confronto. “Um modelo de segurança que faria sentido é aquele que abraçasse a nossa cultura e quem somos, que respeitasse a nossa tradição acima de tudo. Que viesse para o que é para ser feito, e não no intuito de acabar, criar caos, bater em inocente, coagir quem só está ali para brincar, para viver o carnaval, agredir quem faz o carnaval”, afirma.
O relato de Mayara mostra como o Carnaval, símbolo de celebração popular, também se torna palco de disputas sobre controle, território e poder. Ao mesmo tempo em que essas dinâmicas expõem desigualdades e desafios históricos de segurança pública, a festa reafirma a luta de seus protagonistas por respeito, planejamento e políticas que protejam a cultura popular.

