O Carnaval é o maior evento cultural do Brasil e um dos maiores espetáculos populares do mundo. Embora seja marcado pela celebração e pelo encontro, o período carnavalesco também evidencia desigualdades históricas e conflitos relacionados à segurança pública, sobretudo quando a atuação do Estado se expressa em práticas repressivas contra trabalhadores informais.
Com objetivo de entender a relação entre carnaval, segurança pública e o trabalho informal na cidade do Rio de Janeiro, o ISER realizou uma entrevista com a Maria dos Camelôs, Coordenadora Geral do Movimento Unido dos Camelôs (MUCA), trabalhadora ambulante há mais de 25 anos e referência na luta contra a violência praticada por agentes do Estado contra camelôs no Rio de Janeiro.
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A criação do MUCA está diretamente associada a uma experiência de extrema violência institucional vivida por Maria. Apenas 15 dias após passar por uma cesariana e uma cirurgia de ligadura de trompas, ela foi agredida por agentes da Guarda Municipal do Rio de Janeiro. O movimento, segundo ela, nasce das “dores do corpo de uma mulher camelô que luta pelo direito de garantir o sustento da sua família”, transformando a experiência individual em organização coletiva.
Para os trabalhadores ambulantes, o Carnaval vai além da dimensão festiva. Maria explica que, para muitos camelôs, a festa funciona como um “13º salário”, concentrando um pico de faturamento essencial para suas famílias, em um contexto marcado pela precarização do trabalho. Ainda assim, a presença dos camelôs nos blocos é marcada por violência e insegurança. Segundo Maria, a disputa pelo espaço público é permanente e desigual. “Você fica o tempo todo à mercê de um poder público que deveria criar condições de trabalho pra gente. A gente não tem banheiro, não tem depósito para guardar mercadoria, mas a gente faz o Carnaval ser bonito e contribui com essa festa maravilhosa, mas que não é pra gente. A gente está ali para servir a população, sendo reprimido com toda a violência que o Estado tem pros corpos pretos, que são os nossos corpos”, afirma.
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Entre as diversas formas de repressão, Maria destaca a apreensão das mercadorias como a mais cruel. Para ela, essa prática não representa apenas a retirada de bens materiais, mas a impossibilidade de seguir seu trabalho. “Eu acho que a pior violência é você perder toda a sua mercadoria, perder o seu meio de trabalho, a sua ferramenta de trabalho. É humilhante, mas a gente precisa se reinventar para estar na rua no outro dia de novo”, pontua.
A luta dos camelôs no Rio de Janeiro é uma luta por reconhecimento, dignidade e direito à cidade. Para Maria, a informalidade não é uma escolha individual, mas o resultado de um sistema que empurra milhares de pessoas para a precarização. Maria ainda afirma que a principal bandeira do MUCA é o reconhecimento dos camelôs como trabalhadores legítimos. “A gente só vai sossegar no dia que os camelôs forem reconhecidos como trabalhadores. A cidade também é nossa. Camelô é trabalhador e a gente vai continuar na luta”, relata.
A história de Maria dos Camelôs e do MUCA mostra que o debate sobre Carnaval e segurança pública não pode ser dissociado do direito ao trabalho e do direito à cidade. O reconhecimento dos camelôs como trabalhadores e a garantia de melhores condições de trabalho é uma condição fundamental para a construção de uma cidade mais democrática.

