No mês da campanha do ‘Abril Verde’, dedicado a ações de combate ao racismo religioso, o ISER recebeu o Pai de Santo de Aruanda e Mestre em Ciências da Religião (PUC-SP) David Dias para um debate sobre a resistência da umbanda em tempos de digitalização da fé. O encontro aconteceu no dia 08 de abril, durante o Diálogos (Im)pertinentes, evento que amplia conhecimentos e conecta temas relevantes aos projetos e causas do ISER. A conversa teve mediação da jornalista e pesquisadora Magali Cunha. Mais de 40 pessoas participaram do encontro entre o presencial e o virtual.
Introduzido pela pesquisadora Magali, o diálogo se iniciou trazendo a reflexão sobre a relação entre religiões e mídias, explicando que digitalização e a midiatização afetam todas as áreas da vida, desde a sociabilidade e o dia a dia até a política e a economia. Para a pesquisadora, não se trata mais apenas de como as religiões utilizam as mídias, mas de como interagem com elas, sendo transformadas e transformando as realidades em que estão inseridas. “Essa mediação tecnológica leva à midiatização, onde as mídias se tornam tão parte de nossa vida que influenciam a forma como pensamos, vemos o mundo e nos relacionamos. Embora o foco deste diálogo seja a partir da perspectiva da umbanda, isso interfere em todas as religiões e diferentes áreas da nossa vida”, pontua.
Durante o debate, David Dias aborda como a cultura do terreiro, baseada na oralidade e na experiência corporal e coletiva, enfrenta desafios com a virtualização da fé. O Pai de Santo argumenta que a experiência da Umbanda é insubstituível pelo meio digital e que a capitalização e o racismo algorítmico ameaçam a identidade negra e ancestral da religião. “A dimensão da Umbanda é ampla e principalmente cultural. Por isso que se discute tanto a identidade do indivíduo, não somente a partir da fé. Tanto que o elemento religião e fé são pouco compreendidos a partir da cultura da religião.” David ainda afirma que não é possível um encontro com seus ancestrais por meio das redes sociais. “Ainda que eu coloque um celular à frente, toque um atabaque ou incorpore, para as pessoas que estão ouvindo, o máximo que elas terão é uma experiência visual e não aquilo que é catártico dentro de um terreiro de umbanda, que é uma experiência transcendental a partir do encontro com uma memória viva”, enfatiza.
Questionado sobre como apresentar a umbanda online sem perder sua identidade negra de terreiro, buscando alternativas à capitalização e mantendo a essência, o mestre em Ciências da Religião diz que as sessões online são um exemplo de bom uso e reforça que “as redes sociais são como uma erva: a dose determina se é remédio ou veneno. É preciso usá-las com ética, como a erva de Orixá das medicinas.”
A midiatização das religiões também contribui para o racismo religioso. Além disso, o racismo algorítmico, onde algoritmos criados predominantemente por pessoas brancas perpetuam vieses raciais, contribui para a demonização e invisibilização da cultura negra nas plataformas digitais. “A demonização dos símbolos da Umbanda é a demonização da raça negra. As mídias, guiadas por algoritmos criados por pessoas brancas (racismo algorítmico), perpetuam essa demonização. É um desafio complexo enraizado na sociedade brasileira”, afirma David.
Apesar desses desafios, as mídias digitais também podem ser usadas para a resistência e a educação. Ocupar esses espaços pode ser uma forma de combater o racismo religioso e garantir que as religiões afro-brasileiras tenham voz em um ambiente muitas vezes dominado por outras narrativas. Portanto, é fundamental encontrar o equilíbrio entre a necessidade de educação e resistência com a preservação do sagrado e da experiência coletiva e corpórea dos terreiros de Umbanda.
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