Neste 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, o ISER entrevistou o Pai Caio Bayma, sacerdote de Umbanda. O diálogo aborda sobre o cenário da intolerância religiosa e a importância da memória negra com destaque para a figura histórica de Tatá Tancredo, um líder fundamental para a valorização das tradições de matriz africana e para a criação de eventos culturais como o Réveillon de Copacabana.
A intolerância religiosa no Brasil cresceu mais de 80% em 2024, segundo dados do canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o Disque 100. Questionado sobre esse cenário, Caio Bayma argumenta que o aumento nas estatísticas de violência reflete uma maior organização e coragem das comunidades em denunciar abusos. “Não acho que aumentou o número de violência. O que aumentou foi o número de registro. Aumentou uma esperança, uma crença dos povos de terreiro de que haja mais mecanismos que garantam e promovam a nossa saúde e dignidade”, pontua.
A discussão aborda também a importância de ocupar espaços públicos com monumentos negros para combater o apagamento histórico e a invisibilidade social. O espaço público, muitas vezes, é marcado por disputas simbólicas onde diferentes projetos religiosos, políticos e culturais se encontram. Para Caio Bayma, a criação de uma estátua de Tata Tancredo na orla de Copacabana representa a resistência contra o apagamento histórico ao reivindicar a autoria e a presença das tradições de matriz africana na construção da identidade e cultura carioca. “Ter a imagem de um homem negro e líder religioso em Copacabana é um ato político que redesenha a memória da cidade, garantindo que a história afro-brasileira não seja escrita apenas como ‘contribuição forçada’, mas como protagonismo intelectual e cultural”, enfatiza. A criação de um monumento de Tata Tancredo surge em resposta à mobilização de líderes religiosos após episódios de intolerância religiosa e apagamento de corpos, saberes e tecnologias negras que moldaram eventos como o Réveillon de Copacabana.
Tata Tancredo representa uma existência que atravessa a religião, a política, a academia e a cultura. O sacerdote da Umbanda afirma que “embora a estátua seja uma vitória da organização coletiva, ela pode se tornar uma ‘grande lápide’ se não vier acompanhada de políticas públicas efetivas que garantam a dignidade dessas populações”, descreve Bayma.
Pai Caio Bayma ainda destaca que ocupar ruas e praças com símbolos de matriz africana não é uma “afronta”, mas uma estratégia de sobrevivência e reocupação do que foi construído pelo povo preto. Ele argumenta que o movimento deve levar o “terreiro para a rua, invertendo o silenciamento histórico e permitindo que esses corpos sejam ‘desejados’ na rua e não apenas consumidos culturalmente”, afirma.
Em tempo de disputas, sejam elas de espaços ou valores, o ISER segue acreditando no conhecimento, diálogo e na formação como instrumentos de transformação social. Reconhecer o Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa é também reafirmar a importância de construir um espaço público que acolha a diferença, que reconheça a dignidade de todas as crenças, inclusive o direito de não crer.

