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ISER 54 anos: Partilhando saberes e conectando pessoas

No mês de junho, o ISER celebrou 54 anos de existência. Ao longo da nossa jornada, produzimos pesquisas, diálogos e articulação em prol de construir uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva. Somos uma casa de muitas janelas e acreditamos que quando o conhecimento é compartilhado ele se multiplica. A partir das nossas formações em diferentes áreas, aprendemos e expandimos as mensagens de forma coletiva.

“Plantar o começo, cultivar o meio, partilhar as sementes” é o tema da nossa campanha de aniversário em 2024. Acreditamos que nesses 54 anos muitas árvores de raízes fortes foram germinadas e deram frutos em nossa história. Ao mesmo tempo, os projetos e ideias que passam pelo ISER são polinizadas e começam a ter vida própria, com sementes partilhadas em cada território e capilaridade além do que podemos imaginar.

Guerreiras pelo desencarceramento

Para marcar essa celebração, o ISER foi até os territórios conhecer pessoas que tiveram suas histórias transformadas por meio das nossas formações. É o caso da moradora de Petrópolis, com o pseudônimo de Elisângela, que participou do projeto Guerreiras pelo desencarceramento, uma formação jurídico-política em sistema socioeducativo e luta pela desinternação, articulada pelo ISER em parceria com a AMAR – RJ. Ela conta que, por meio do curso, passou a ter conhecimento dos seus direitos. “Eu tinha a minha casa invadida toda semana pelos policiais, eles entravam sem mandado e faziam o que queriam. Depois que eu aprendi que eles não têm esse direito, parei de ficar muda e comecei a falar ‘na minha casa vocês só entram com mandado de prisão ou mandado para entrar na minha residência’. Para mim, o curso me ajudou muito, se eu não soubesse dele até hoje eu teria a minha casa invadida”, declara. Elisângela ainda aconselha a buscarem conhecimento sobre o tema. “Quem tiver a oportunidade de fazer o curso, faça. Porque aprendemos que não somos qualquer coisa, temos direitos sim e precisam ser garantidos”, enfatiza.

A moradora de Petrópolis também relata que todo aprendizado adquirido é compartilhado com outras pessoas. “Sempre que eu tenho a oportunidade, crio um grupo com pessoas que estão com familiares privados de liberdade e lá compartilhamos sobre como fazer sucata, por exemplo, que é o alimento que leva para o preso, o que pode levar nas visitas, quais kits de higiene, a nossa vestimenta. Isso nós aprendemos muito no curso e me deu a oportunidade de ensinar outras meninas”, finaliza. 

Em junho, começou o terceiro ciclo do Guerreiras pelo desencarceramento, desta vez com o foco em familiares de adolescentes internados no sistema socioeducativo. O projeto tem a expectativa de formar 30 familiares de pessoas que cumprem medidas socioeducativas e egressos do sistema. Os encontros serão durante três meses a cada último domingo do mês, em Benfica, Zona Norte do Rio de Janeiro. Desde a sua criação, em 2022, o projeto formou 45 familiares de pessoas privadas de liberdade e sobreviventes do cárcere.

Boto Fé no Clima

Assim como Elisângela, o jovem Fabrício Malheiros, morador de Pinheiral, interior do Rio de Janeiro, vem ecoando as mensagens e experiências adquiridas com a sua comunidade na formação do Boto Fé no Clima, uma iniciativa que reúne e engaja lideranças religiosas com a missão de conscientizar suas comunidades de fé no enfrentamento à crise climática. “O Boto Fé no Clima trouxe muita percepção de me impor enquanto pessoa religiosa e também de partilhar esse saber com as pessoas, com a minha comunidade de fé e dentro da universidade. Trouxe também a percepção sobre o racismo ambiental. Aqui [no terreiro] já alagou algumas vezes, com pessoas recolhidas. A gente está a todo momento sofrendo essas coisas, sem saber dar nome. O Fé no Clima contribuiu muito com a formação de colocar nome nas coisas e explicar também para as pessoas que estão sofrendo com isso”, afirma.

O Boto Fé no Clima iniciou sua segunda edição no último mês. Foram selecionadas 70 lideranças religiosas e juventudes de diversas regiões do Brasil. As aulas são mediadas por ativistas, pesquisadores e líderes religiosos em encontros online pela plataforma Zoom. A primeira turma do Boto Fé no Clima teve início em junho de 2023 e formou 50 jovens de diferentes grupos de fé, entre evangélica, católica, umbandista, indígena, budista e testemunha de Jeová, de todas as partes do Brasil.


Fabrício Malheiros no Jardim Sensorial, onde é um dos cuidadores, em Pinheiral – RJ / Foto: ISER

Fé no poder que vem das bases

O trabalho do ISER começa nas bases. Por meio das articulações com lideranças religiosas, juventudes e coletivos é possível fortalecer a interface entre religião e espaço público e ampliar o debate sobre justiça socioambiental e a agenda de direitos. Durante a ida aos territórios de diversas partes do Rio de Janeiro, foi possível conhecer a história de Eunice Barbosa, uma liderança religiosa de Santa Cruz, Zona Oeste da cidade, que coordena o projeto Ser Arte, que leva aulas de dança, capoeira e reforço escolar para crianças e adolescentes da sua comunidade. 

Eunice participou do Fé no Poder que vem das bases, um projeto que conecta lideranças cristãs comprometidas com a defesa de direitos, promoção da cidadania e defesa da democracia. Para a educadora, a formação foi um divisor de águas. “Cada aula é um quebra de paradigma. Tiveram assuntos muito fortes, como um que falou da ditadura. Se eu falar até me emociono. A gente refletiu todo impacto e sofrimento que foi para o nosso povo. Através das aulas você começa a enxergar que existem outros horizontes e realidades que a gente pensava que era de um jeito e é de outro”, relata. 

A liderança religiosa ainda compartilha que a sua comunidade é diferenciada porque foge do tradicional. “A gente se preocupa muito com a questão social. Eu e algumas pessoas mais novas entendemos a igreja enquanto um grupo que pensa na promoção humana. Vivemos em um mundo onde a gente percebe que a exclusão social é muito grande, se a gente ficar dentro da nossa caixinha, acabamos sendo sufocados por vários movimentos. Temos que fazer a diferença no nosso espaço e que ela possa ser expandida através das nossas ações”, comenta. 


Eunice Barbosa na sua comunidade de fé, em Santa Cruz – RJ / Foto: ISER

No último fim de semana de junho aconteceu o seminário interno do projeto Fé no poder que vem das bases com o tema “Para pensar o Brasil: Educação e Religião em um país democrático e plural”, no Rio de Janeiro. Desde o seu lançamento, 240 lideranças já foram impactadas pelos seminários ou formações do projeto.

Conectar pessoas e saberes faz parte do trabalho do ISER há 54 anos. Nessa trajetória foi possível conhecer histórias como a da Elisângela, do Fabrício, da Eunice e de tantas outras que colaboram para que o ISER seja essa casa de muitas janelas, onde religiões, democracia e direitos se encontram. São 54 anos atuando no fortalecimento de uma democracia plural, ancorada na valorização de diversidades religiosas, racial, étnica, de gênero e de territórios. Promover espaços de reflexão, debates e formação é contribuir com a multiplicidade de vozes que existem em nosso país e construir uma sociedade mais inclusiva.