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ISER lança pesquisa inédita sobre Cristianismos e Narrativas Climáticas, com entrevistas na Marcha Para Jesus

Mais de 80% dos evangélicos entrevistados afirmam que o governo é o principal responsável por resolver problemas relacionados ao meio ambiente

O Instituto de Estudos da Religião (ISER) realizou a pesquisa “Cristianismos e narrativas climáticas”, que traz uma análise sobre como grupos católicos e evangélicos interpretam os debates relacionados ao meio ambiente, concepções de natureza e mudanças climáticas. Os dados têm como objetivo contribuir para a compreensão de como os cristãos do Brasil vem construindo repertórios sobre as pautas climáticas.

Os resultados da pesquisa demonstram que evangélicos frequentadores da Marcha para Jesus entendem as mudanças climáticas como resultado da ação humana e concordam que suas igrejas devem abordar o assunto. 70% dos entrevistados discordam totalmente da afirmação de que o aquecimento global é uma mentira, ou seja, uma parcela considerável de evangélicos praticantes verifica os impactos do aquecimento global e da mudança climática em seu cotidiano.

O estudo foi feito a partir de metodologias quantitativas e qualitativas nos ambientes digitais e nas ruas, em entrevistas realizadas nas Marchas para Jesus em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, entre junho e dezembro de 2023. Em cada uma das marchas, foram entrevistadas cerca de 200 pessoas, com um total de 673 entrevistas, 53% delas com participantes com idade entre 16 e 39 anos. Na segunda fase da pesquisa, o ISER também analisou o uso de mídias digitais por grupos católicos e evangélicos, bem como as narrativas que têm sido veiculadas sobre a questão ambiental e climática.

Segundo a antropóloga Jacqueline Teixeira, professora da Universidade de Brasília e coordenadora da pesquisa do ISER, os resultados ajudam a reconfigurar e ressignificar estereótipos relacionados ao público evangélico, principalmente dos participantes da pesquisa na Marcha para Jesus, que são os que têm alta participação e engajamento nas suas comunidades de fé. “A pesquisa mostra que esse grupo demonstra uma preocupação não apenas de estarem informados sobre as pautas climáticas e que cheguem para eles, mas também qualificar de onde vem essas informações. Além de mostrar que esse público desqualifica algumas fake news, como não acreditar que a terra é plana e acreditar que existe aquecimento global”, pondera a professora da Universidade de Brasília.

A investigação também revela que diversas justificativas teológicas são evocadas para explicar as mudanças climáticas e catástrofes ambientais. No Rio de Janeiro, 61% dos entrevistados concordam com a associação entre mudanças climáticas e a noção de pecado, mas apenas 4% atribuíram a responsabilidade destas mudanças à ação divina. No total, 43% dos entrevistados das três cidades afirmam concordar que as mudanças climáticas são reflexo do pecado do homem na terra.

A maioria dos evangélicos também acredita na responsabilidade do Estado para criação de políticas públicas de preservação e enfrentamento às mudanças climáticas. Os dados revelam que 86% das pessoas de todas as capitais pesquisadas indicaram o governo como principal responsável por resolver problemas relacionados ao meio ambiente.

Não é incomum que cristãos associem catástrofes climáticas ao Apocalipse e à volta de Jesus à Terra, embora essa percepção não seja hegemônica entre as respostas. Em relação aos desastres ambientais estarem relacionados à segunda vinda de Jesus, 37% concordam totalmente com essa afirmativa. Além disso, a grande maioria dos entrevistados (69%) entende que a responsabilidade pelas mudanças climáticas é a ação humana.

A pesquisa também trouxe para avaliação do público algumas frases que foram ditas por figuras do cenário político nacional dos últimos anos, em um esforço de entender a polarização política do país. Uma das frases apresentadas consiste numa variação de uma declaração do ex-presidente Jair Bolsonaro. Trata-se da afirmação de que “a Amazônia não pega fogo por ser úmida”, 63% dos entrevistados afirmaram discordar totalmente, seguido de “discordo em parte” (16%).

Evangélicos também demonstraram se posicionar em defesa de territórios indígenas em relação ao agronegócio. Em relação à frase “nenhum fazendeiro tem o direito de invadir terra indígena”, 70% concordam totalmente.

A pesquisa também mapeou a incidência de cristãos (evangélicos e católicos) em ações de promoção de justiça ambiental e climática, mapeando coletivos, movimentos e igrejas ligados que tem promovido o cuidado com a Terra como parte de sua prática religiosa ou espiritual. Para Laryssa Owsiany, antropóloga e pesquisadora do ISER, o estudo apresenta um mapeamento importante das iniciativas cristãs que promovem a agenda socioambiental. “A investigação mostra a defesa da criação em contraposição às escatologias que retomam o Apocalipse. São dados muito interessantes que mostram o engajamento desses atores nas redes sociais reforçando nuances complexas e diversas da pauta climática dentro do campo cristão”, declara Owsiany.

Os indicadores revelam que pouco mais da metade dos entrevistados na Marcha Para Jesus (59%) responderam não haver atividades em suas igrejas voltadas para o tema ambiental. A maioria das pessoas nas três cidades, entretanto, acha importante que a igreja aborde a temática do meio ambiente. Quando perguntados sobre o interesse e acesso a notícias sobre a questão ambiental, mais da metade dos cristãos entrevistados (68%) afirmaram ter acesso a notícias relacionadas ao meio ambiente, sendo que metade se informa por meio da internet e sites de notícias (49%).
Isabel Pereira é coordenadora do eixo de Religião e Meio Ambiente do ISER, que a partir da iniciativa Fé no Clima tem fortalecido a atuação de juventudes de fé a partir da troca de saberes entre cientistas, religiosos, ambientalistas e representantes de povos originários e de comunidades tradicionais, com objetivos de adaptação, resiliência e justiça climática. “A partir de atividades de formação e articulação fomentamos ações de enfrentamento à emergência climática em grupos com identidade religiosa, através da liderança de jovens. Buscamos que comunidades de fé possam produzir narrativas ambientais voltadas ao cuidado com a criação, a partir de suas perspectivas de fé”, afirma a pesquisadora.
A pesquisa “Cristianismos e narrativas climáticas” faz parte do eixo Religião e Espaço Público do ISER, que se dedica à produção de conhecimento sobre a interface das religiões com política e meio ambiente.O sumário executivo está disponível gratuitamente para acesso no site do ISER.


Para saber mais, acesse o sumário executivo da pesquisa.