Em um país diverso, onde as diferenças deveriam ser pontes e não muros, a formação AXÉ-AMÉM surge como um gesto de esperança e diálogo para respirar, ouvir e reencontrar a humanidade no outro. Promovida pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), a iniciativa reuniu 27 pessoas negras evangélicas e de terreiro, unindo vozes e trajetórias em torno de um objetivo comum: superar hostilidades, enfrentar o racismo religioso e construir pontes para um futuro de respeito e cooperação.
Durante seis encontros, os integrantes compartilharam suas experiências, dores e sonhos. Entre debates e diálogos, nasceram estratégias de resistência, mas também uma nova forma de olhar para a fé do outro, não como ameaça, e sim como possibilidade de construção coletiva. Mais que uma formação, o AXÉ-AMÉM foi um reencontro com a história coletiva de pessoas que carregam, na fé e na ancestralidade, a força para resistir e criar novos caminhos.
“Foi uma experiência transformadora e inovadora”, afirma Igor Almeida, babalorixá e integrante da formação. “A gente passa por tantos percalços para expressar nossa fé. Ter essa oportunidade foi transformador para minha casa de axé, para meus filhos e para minha vivência. Estamos plantando uma semente que vai dar grandes frutos”, completa.
As sementes lançadas durante os encontros são regadas pelo desejo de mudança. Para muitas pessoas, olhar para o outro com empatia é um aprendizado diário. Isabel Braga, cristã protestante, e também integrante da formação traduz esse sentimento. “Como pessoa evangélica, eu entendo que devemos aprender sobre a crença do outro e respeitar. Espero disseminar no meio cristão o respeito pelo outro e não o medo, porque quando a pessoa sente medo é muito perigoso a reação que pode ter contra o outro”.
O medo, tantas vezes alimentado pelo desconhecimento, deu lugar ao diálogo. Amanda, também evangélica, sonha com novas práticas de convivência. “Espero colher uma mudança no padrão de comportamento, porque alguns padrões podem ser quebrados quando você tem uma visão diferente do outro. Quero sair daqui uma pessoa melhor não só para os meus irmãos evangélicos. A gente fala muito dentro da igreja que temos um propósito para cumprir com um povo, mas que povo é esse? A gente habita no mesmo planeta, então esse povo que tá aqui junto tem que habitar em harmonia, conformidade, respeito e amor”, pontua.
Para Victória Paixão, integrante da formação e do Candomblé de Angola, a experiência também ecoou fundo. Segundo ela, o grande diferencial da formação é trazer a questão racial, além de fazer parte de uma família dividida entre evangélicos e do candomblé. “Já tive muitas colisões, mas nunca percebi que minha família também era negra. Nunca tinha imaginado que uma pessoa, por ser negra, não pudesse ocupar um lugar dentro da igreja ou usar algo que remetesse à cultura africana sem sofrer intolerância religiosa.”
Para Carolina Rocha, pesquisadora do ISER e uma das facilitadoras da formação, a experiência reafirmou que a ponte é possível. “O AXÉ-AMÉM foi um reencontro, uma conexão. A possibilidade de confirmar que pessoas negras e de terreiro podem estar juntas na construção do diálogo e da cooperação. O AXÉ-AMÉM também teve a intenção de incidir contra o racismo religioso que opera no nosso país, gerando um massacre para a população de matriz africana. Todo mundo contribuiu com sementes poderosas”, enfatiza. Obalerá, que também contribuiu na mediação dos encontros, completa. “A gente termina esse momento com a certeza de que o axé e o amém são forças conjuntamente transformadoras.”
Mais do que uma formação, o AXÉ-AMÉM foi uma ação contra a intolerância religiosa e o racismo. Um gesto coletivo de esperança e um convite para que a fé seja ponte, nunca muro.

