Para milhões de pessoas, o carnaval é sinônimo de alegria, música e celebração coletiva. Mas o maior espetáculo cultural do país também expõe profundas desigualdades raciais e sociais. Nas ruas de Salvador, cidade que sedia um dos maiores carnavais do Brasil, a festa é marcada por abordagens violentas e por uma lógica de repressão por parte da segurança pública.
Com o objetivo de refletir sobre a relação entre carnaval e segurança pública, o ISER conversou com o pesquisador e ativista soteropolitano Dudu Ribeiro, Diretor Executivo da Iniciativa Negra Por Uma Nova Política de Drogas. A partir de sua experiência e pesquisas, ele lança luz sobre como a política de segurança no carnaval de Salvador opera em uma lógica repressiva que transforma a festa popular em território de controle e medo.
O Diretor Executivo da Iniciativa Negra afirma que o carnaval poderia ser “uma celebração do direito à vida a partir do lazer e da cultura”, mas acaba reproduzindo as mesmas desigualdades que atravessam a cidade ao longo do ano. “Temos em Salvador uma prática das forças de segurança altamente violenta, sobretudo contra trabalhadores, pessoas negras e periféricas que ocupam as ruas”, explica.
A violência, segundo o pesquisador, não ocorre apenas em situações de conflito. Ela se estrutura como estratégia. “Não há uma ideia de segurança pública que parte do princípio de proteger todas as pessoas para o carnaval funcionar. Parte da ideia de que é preciso agredir algumas pessoas para fazer um trabalho de amedrontamento”, afirma.
Nos últimos anos, outro elemento passou a reforçar esse cenário: o uso de tecnologias de vigilância, como o reconhecimento facial. Embora esses sistemas sejam vendidos como ferramenta de segurança, Dudu questiona sua eficácia e a falta de transparência. “Só são divulgados os números de prisões, mas não o número de pessoas violentadas, coagidas ou conduzidas por erro da tecnologia”, aponta. Sem controle social sobre os dados, os riscos recaem sobre os mesmos corpos, geralmente negros e periféricos.
Para o pesquisador, a privatização do espaço público é uma das marcas mais evidentes das disparidades sociorraciais do carnaval de Salvador. Diante desse cenário, Dudu defende uma mudança urgente deste padrão. “É necessário garantir que o carnaval seja um patrimônio de todas as pessoas. Não deve haver espaço para a privatização do espaço público no carnaval”, afirma. Para ele, a segurança pública precisa deixar de ser exclusivamente repressiva e se conectar com políticas de cuidado, como redução de danos e abordagens humanizadas. Ribeiro também ressalta a importância de investir nos blocos populares e afro, protagonistas históricos da festa.
Em uma cidade majoritariamente negra, mas ainda desigual nos espaços de poder, o carnaval de Salvador segue sendo palco de disputas. Para Dudu, transformá-lo em um espaço de cuidado, justiça e alegria é um passo fundamental para que a maior festa de rua do país seja de fato para todas as pessoas.

