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Religião, clima e política: o que mais mobiliza as eleições de 2024? Boletim #20 2024

Sexta-feira, 04 de Outubro de 2024

Olá, tudo bem?

Chegamos na reta final do processo eleitoral pelas eleições municipais. Nos últimos 45 dias de campanha eleitoral, nos mobilizamos para produzir análises, reflexões e apresentar contribuições das pesquisas do ISER que nos ajudem a entender a conjuntura atual. No país em que tudo se mistura, não seria diferente entre religião e política, mas isso tem implicações.

Se você acompanha nosso trabalho, já sabe que não se pode discutir os rumos do Brasil sem reconhecer o papel e a força da religião na vida social do país. Apesar das discussões sobre essa temática terem ganhado mais força nos últimos anos, o ISER tem se pautado desde 1970 pela percepção de que a religião é um fator fundamental de mudança social para melhor compreender e atuar junto à sociedade brasileira.

A mobilização da religião em contextos políticos e eleitorais é uma realidade histórica no Brasil que cresceu nos últimos anos. Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa e Reputação de Imagem (IPRI), o número de candidatos a vereador e prefeito que usam de forma explícita uma identidade religiosa em seus nomes de campanha cresceu cerca de 225% ao longo de 24 anos. Entretanto, o ISER tem refletido que os nomes de urna já não são a única forma de mobilização de identidades religiosas. Desde 2020, nossas pesquisas ampliaram o escopo para analisar não mais os nomes utilizados pelas campanhas, mas as formas que candidaturas e campanhas tratam a identidade religiosa de maneira mais geral, em discursos, posicionamentos e posts em redes sociais. A pesquisadora e Coordenadora de Religião e Política do ISER Lívia Reis explica que “candidatos que não são religiosos passaram a se identificar como cristãos – assim, de modo genérico –, para comunicar ao eleitorado o conjunto de valores com os quais ele se identifica ou então para pedir voto em igrejas de pequeno e médio portes, que não têm suas candidaturas oficiais”.

A pesquisa Religião e Voto: uma fotografia das candidaturas com identidade religiosa nas Eleições 2020, realizada pelo ISER em 2020, revela que as candidaturas que mobilizam a religiosidade durante a campanha foram mais votadas. De acordo com a pesquisa, ao final das eleições os candidatos com identidade religiosa passaram a ocupar, também em média, 51,35% das cadeiras de cada Câmara Municipal pesquisada.

O aumento de candidaturas com identidade religiosa nos faz questionar – e pode até gerar certa confusão – sobre laicidade e se, de fato, o Estado é laico. A Constituição de 1988 garante o direito à liberdade religiosa e a existência do pluralismo religioso no campo democrático. Mas o que define se o Estado é laico, afinal? Quando há uma separação oficial entre Estado e religião, ou seja, não existe uma religião oficial do Estado e nenhuma religião pode ser beneficiada em detrimento de outras. Apesar da fragilidade do Estado laico no Brasil, as questões religiosas não podem ser levadas em conta no debate público. Compreender e defender a separação da religião e do Estado é também defender a democracia. 

Para entender mais sobre os conceitos de laicidade, confira o nosso artigo na plataforma Religião e Poder. 

Historicamente, religião e política sempre estiveram interligados no Brasil. Mas outra pauta também vem chamando atenção na agenda pública e nem tanto nos debates e propostas eleitorais: a crise climática. 

O Brasil enfrenta a pior seca da história, de acordo com o órgão de monitoramento do Governo Federal. Diversas regiões enfrentam consequências intensas de emergência climática, como enchentes, queimadas, secas e ondas de calor. 

A pauta da justiça climática deveria ser prioridade nas propostas dos candidatos e no Congresso Nacional. Nesta reta final de campanha, quais são os candidatos que propõem ações para combater a crise climática?  Ainda dá tempo de analisar quem está preocupado com o clima e formulando propostas de mitigação e adaptação climática. A luta pela justiça socioambiental é urgente e deve ser coletiva.

Você vai também ver neste boletim: Destaques do Monitoramento de Projetos de Lei, de agosto; O voto das mulheres evangélicas; A escola como disputa nas eleições municipais; ISER indica; Formatura do terceiro ciclo Guerreiras pelo Desencarceramento; ISER na mídia e muito mais.

Boa leitura!


Nestes dias finais do contexto das eleições, separamos alguns textos que recomendamos sua leitura, se possível, antes da votação do primeiro turno.  

Tudo o que você precisa saber sobre o voto das mulheres evangélicas

Desde 2022, o ISER vem conduzindo a pesquisa “Mulheres evangélicas, política e cotidiano”, pela qual ouve anualmente pessoas desse segmento cristão. Em 2024, foram 46 entrevistas, quase todas conduzidas em tríades, com participantes agrupadas em mesclas por denominação, classe social, faixa etária (entre 16 e  60 anos) e região do país.

A partir dos resultados da pesquisa de 2024, a pesquisadora Nina Rosas escreveu um artigo sobre o voto das mulheres evangélicas, publicado pelo Nexo Políticas Públicas em parceria com a plataforma Religião e Poder.

Dados revelam que 67% das entrevistadas declaram voto em Bolsonaro em 2022. Bolsonaro é descrito como “doidinho”, “meio sem filtro”, “meio rebelde”, “meio degenerado”, mas, no geral, as avaliações de seu governo são positivas. Questionadas sobre a avaliação do Governo Lula, 67% das participantes da pesquisa dizem que Lula tem feito uma gestão ruim, 15% são indiferentes, sem perceber uma melhora nem uma piora significativa e 18% avaliam a administração do atual presidente como boa. 

Quando perguntadas sobre o que consideravam importante na definição do voto, as entrevistadas apontam uma constelação de fatores, a saber, identidade partidária, comportamento público dos candidatos, preocupações com problemas socioeconômicos, entre outros.


A escola como campo de disputa nas eleições municipais de 2024

No texto publicado pelo Nexo Políticas Públicas em parceria com a plataforma Religião e Poder do ISER, a pesquisadora Andréa Silveira de Souza traz uma análise sobre a pauta da educação com olhar para as escolas nas campanhas eleitorais para prefeito em 2024.

A educação, historicamente pautada nos discursos de campanha eleitoral e nos planos de governo, como área que necessita de investimentos para atender as necessidades da população é tomada por atores religiosos com outro foco e objetivo. No campo político e na sociedade civil tais atores passam a pautar agendas de cunho religioso conservador em tom de pânico moral, em lugar de políticas públicas de garantia de direitos fundamentais e bem estar social. Mas que agendas são essas?

São elencadas três agendas principais: 1) O combate a uma suposta “ideologia de gênero” e doutrinação política de esquerda nas escolas; 2) O programa de escolas cívico-militares; e, 3) A descriminalização da educação domiciliar, mais conhecida como homeschooling, cujo PL 3.179/2012 foi aprovado na Câmara dos Deputados em 2022, e segue em análise no Senado (PL 1.388/2022).


Combate a incêndios, crise climática, desastres e proteção ambiental: destaques do Monitoramento de Projetos de Lei em agosto

O Monitoramento de Projetos de Lei na Câmara Federal, realizado pela plataforma Religião e Poder do ISER, indica que as pautas que emergem da conjuntura e da cobertura midiática seguem orientando a apresentação de projetos por parlamentares. No mês de agosto, o destaque foi o combate a incêndios e queimadas, que se espalharam por todo Brasil. 

Uma das ações de contenção para a situação de calamidade vivida por alguns estados, principalmente na região norte e centro-oeste do país, foi a proibição imediata do uso do fogo na agricultura até se amenizar os impactos da seca e dos incêndios. Situação que chama a atenção dos deputados federais, o que pode ser verificado em diversos Projetos de Lei apresentados à Câmara em agosto. Diversos PLs preveem aumento de pena para o crime de produção de incêndio em floresta ou em demais formas de vegetação e também penas mais graves para os responsáveis quando o incêndio criminoso atingir mais de um município.

Outros temas recorrentes no Congresso Federal voltam a aparecer com destaque e versam sobre os direitos das mulheres, principalmente em caso de violência, abusos e agressões, os direitos de crianças e adolescentes e também a causa animal.


Explorando a fé para lucrar: publicidade, golpes e religião

Os pesquisadores Bruno Mattos e Erick Dau produziram um artigo sobre a epidemia de golpes através do uso da inteligência artificial e a exploração da crença religiosa no convencimento ao consumo como uma nova fronteira do capitalismo que precisa ser encarada.

No estudo, os pesquisadores demonstram como criminosos manipulam vídeos e áudios de líderes religiosos conhecidos e admirados por milhões de brasileiros para a veiculação de anúncios nas plataformas da Meta – controladora do Facebook e do Instagram – que, em sua maioria, promovem remédios e tratamentos cuja eficácia não é comprovada e sem autorização de autoridades competentes.

Figuras como os pastores Claudio Duarte e Silas Malafaia, e os padres Fábio de Melo e Marcelo Rossi aparecem nos anúncios não só como relevantes autoridades espirituais, mas também como garotos-propaganda de produtos para dores, impotência sexual, emagrecimento, ansiedade e depressão. A retórica messiânica dos anúncios, aliada à promessa de verdadeiros milagres apela ao imaginário religioso e torna os golpes irresistíveis, especialmente para aqueles que admiram as lideranças e creem em suas palavras.


ISER e CartaCapital lançam curso ‘Brasis Evangélicos’

A CartaCapital, em parceria com o ISER, lança o curso ‘Brasis Evangélicos’, com o objetivo de ajudar a desmistificar o segmento evangélico no Brasil, oferecendo uma visão profunda e crítica da sua presença no espaço público e seu impacto nas mais variadas esferas da vida nacional. A aula de abertura é gratuita e acontece no YouTube da CartaCapital no dia 9 de outubro.

O curso seguirá no dia 15 de outubro e vai até o dia 24 de outubro, com duração de 60 minutos por aula, totalizando uma carga horária de 6 horas. ‘Brasis Evangélicos’ terá a Pesquisadora Magali Cunha, a Coordenadora de Religião e Política Lívia Reis e o Diretor Executivo Adjunto Clemir Fernandes como professores abordando desde a pluralidade do segmento evangélico até a presença de evangélicos na arena política brasileira

O curso tem como público-alvo jornalistas, acadêmicos, líderes religiosos e qualquer pessoa interessada em compreender as complexidades do mosaico religioso brasileiro.


Formatura do terceiro ciclo Guerreiras pelo Desencarceramento

No último domingo de setembro (29/09), a equipe de Direitos e Sistema de Justiça se reuniu no ISER com os familiares que participaram do Guerreiras pelo Desencarceramento: formação jurídico-política em sistema socioeducativo e luta pela desinternação para realizar a formatura do terceiro ciclo da formação. 

O encerramento foi marcado por diálogos, escuta ativa e troca de experiências e aprendizados. Durante a manhã, os integrantes e facilitadores relembraram os assuntos abordados ao longo dos últimos três meses, bem como Estado e democracia no Brasil, Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), abordagem policial e medidas socioeducativas. Também foram partilhados os maiores desafios enfrentados a fim de pensar em estratégias de resistência coletivas. Na parte da tarde os participantes celebraram a conclusão da formação e receberam o certificado. 

Neste terceiro ciclo, o Guerreiras pelo Desencarceramento formou 22 familiares de adolescentes internados no sistema socioeducativo e 3 sobreviventes da internação. A formação é realizada pelo ISER em parceria com a Associação das Mães e Amigos da Criança e do Adolescente em Risco (AMAR – RJ).


ISER participa da Conferência dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

O ISER participou da semana da Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, representado pela Diretora Executiva e pesquisadora Ana Carolina Evangelista, de 20 a 27 de setembro.

A convite do Instituto pelo Diálogo Intercultural, a pesquisadora participou do painel “Transformar uma Governação Global Inclusiva”, da Conferência dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), falando sobre os declínios dos princípios democráticos. 

Participar desses debates reforça o compromisso do ISER com a promoção do diálogo para fortalecer iniciativas em prol de uma sociedade mais justa e democrática.


Campanhas antigênero, prisões e mudanças no campo religioso no Brasil e na França

Na sexta-feira do dia 20 de setembro, o ISER recebeu a pesquisadora francesa e Diretora de Estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) Céline Béraud para um bate-papo sobre campanhas antigênero, prisões e mudanças no campo religioso no Brasil e na França, junto com os pesquisadores do Ludens (MN/UFRJ).

Os pesquisadores do ISER também se reuniram com Céline Béraud no Museu Nacional na segunda-feira (23/09). Durante o encontro, a pesquisadora abordou as mobilizações contra o casamento igualitário na França e as manifestações realizadas no período de 2018 a 2021, onde se opuseram à reprodução medicamente assistida por parte de casais lésbicos e mães solo. A conferência teve como tema as campanhas antigênero na França: As controvérsias a respeito do casamento igualitário ao debate nacional sobre bioética.


ISER na mídia

“O Brasil está mais evangélico e isso não é um problema necessariamente. A gente tá falando da diversidade da população, de uma população que se torna evangélica por opção, por escolha, por conexão, por prática”, afirma Ana Carolina Evangelista em uma entrevista para o programa Provoca da TV Cultura. Durante sua participação, a pesquisadora fala sobre o crescimento dos evangélicos no Brasil que, segundo previsões, deve superar o número de católicos em 2030. Ana Carolina ainda ressalta que religião e política nunca estiveram separados. Assista a entrevista completa!

“O problema passa a ser justamente quando o Estado, através das pessoas que o representam nos órgãos de decisão, baseiam suas decisões em valores religiosos”, explica Livia Reis em uma entrevista para o Marco Zero sobre juristas religiosos e direito ao aborto. A pesquisadora ainda ressalta que a Justiça não é neutra, embora devesse se basear na garantia de direitos fundamentais e sociais. Leia a matéria completa!

“Pablo Marçal sempre se colocou como um evangélico que não usava a igreja como artimanha, um artifício ou ator político manipulado nesse jogo eleitoral. E Ricardo Nunes começa a correr atrás para poder fazer um movimento de virada com uma frequência maior, aproximação maior com lideranças evangélicas”, explica Ronilso Pacheco em uma entrevista para o UOL News. Segundo Ronilso, o candidato a prefeito Pablo Marçal (PRTB) transformou um bloco do debate UOL/Folha em um estudo bíblico dominical. Confira a matéria completa!

“Desinformação sobre religião e política em circulação também tem relação com o tema do Estado laico. Em muitos espaços ele é apresentado como ameaçado por conta desta presença mais intensa de grupos religiosos no espaço público”, explica Magali Cunha em um artigo publicado pela CartaCapital. A pesquisadora ainda afirma que o Estado laico sempre foi frágil no Brasil, a começar com o poder da hegemonia católica, passando pela intolerância em relação às religiões de matriz africana. Leia o artigo completo! 


ISER indica: nove publicações sobre religião e política para aprofundar no período eleitoral

O ISER foi pioneiro em identificar as significativas transformações que ocorreram no campo religioso brasileiro e sempre se pautou pela percepção de que a religião é um fator fundamental de mudança social e uma variável indispensável para melhor compreender a sociedade brasileira.

Em ano eleitoral, tendo em vista que as discussões sobre o campo religioso têm ganhado cada vez mais destaque no mundo político, trouxemos uma linha do tempo de novas publicações do ISER sobre religião, política e eleições em diferentes contextos do Brasil.

Pesquisas como O Novo Nascimento: os evangélicos em casa, na igreja e na política, Religião e Voto e Evangélicos à Esquerda no Brasil estão entre as indicações.


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