A invasão do território venezuelano e o sequestro militar do Presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos representam grave violação da soberania nacional e do direito internacional. Amparada na retórica do combate ao chamado “narcoterrorismo” e na explicitação de interesses econômicos em torno da exploração do petróleo, tal ação, grave, constitui um alerta inequívoco para toda a América Latina. Após o ataque à Venezuela – país que detém cerca de 17% das reservas mundiais de petróleo bruto – o Presidente norte-americano declarou a intenção do setor petroleiro dos EUA de investir na infraestrutura para ampliar a extração do produto no país invadido.
A chamada “Guerra às Drogas” opera como um dispositivo geopolítico que desloca o debate da autodeterminação dos povos para o campo da segurança militarizada, sustentando a ideia de que países latino-americanos seriam incapazes de governar seus próprios territórios e, portanto, necessitariam de tutela externa. O resultado é a normalização da violação da soberania, a ampliação da violência estatal e a produção de um inimigo absoluto: o narco.
A retórica geopolítica da guerra às drogas está imbricada com a política de segurança pública racista e genocida no Brasil, onde o discurso do “narcoterrorismo” vem sendo mobilizado por projetos autoritários e leituras moralizantes da segurança pública. Ao adotar essa gramática, o debate sobre a violência afasta-se de suas causas estruturais – como o racismo, a desigualdade, a ausência de políticas públicas e o papel punitivista do Estado – e passa a tratar favelas e periferias como zonas de guerra. A experiência venezuelana evidencia os riscos desse caminho, no qual a soberania é relativizada em nome do medo e passa a justificar a militarização extrema e o enfraquecimento dos direitos humanos.
A invasão do território venezuelano não tem qualquer intenção de defesa da democracia. Pelo contrário, é parte da incursão imperialista que, por meio da ocupação e da chantagem armada, controla forças políticas e amplia o investimento predatório em recursos como o petróleo. Em um contexto em que a crise climática se intensifica, que afeta de maneira desigual as populações mais vulnerabilizadas, a lógica extrativista avança de forma predatória. Para além do petróleo, a Amazônia, sua biodiversidade e a vida de seus povos, tornam-se alvo crescente de interesses geopolíticos, pressionando países vizinhos, inclusive o Brasil, a uma adesão irrestrita aos projetos políticos norte-americanos.
Diante desse cenário, reafirmamos a defesa da soberania dos povos latino-americanos, do direito à autodeterminação, da justiça social, da preservação socioambiental e dos direitos humanos como princípios inegociáveis. A desconstrução da retórica do “narcoterrorismo” e da lógica extrativista que a sustenta é parte central dos desafios políticos e éticos que o atual tempo histórico nos coloca.
Instituto de Estudos da Religião (ISER)

